Feijão
Doenças
Autor
Adriane Wendland Ferreira - Embrapa Arroz e Feijão
Murillo Lobo Junior - Embrapa Arroz e Feijão
Entre os principais fatores que limitam a produtividade do feijão-comum (Phaseolus vulgaris L.) no Brasil, as doenças continuam tendo papel de destaque. Essa leguminosa é suscetível a uma ampla gama de patógenos, incluindo fungos, bactérias, vírus e nematoides, cuja incidência varia conforme a época de cultivo, região e condições climáticas.
O cultivo do feijoeiro no Brasil tradicionalmente ocorre em três safras anuais:
Safra das águas (verão): semeadura entre agosto e dezembro e colheita entre novembro e março;
Safra da seca: semeadura entre janeiro e abril;
Safra de outono-inverno: semeadura a partir de maio, com colheita entre agosto e setembro.
Durante a safra das águas, predominam temperaturas elevadas e alta umidade, condições que favorecem intensamente a ocorrência de doenças, principalmente as de origem fúngica e bacteriana. Destacam-se nesta época:
Antracnose (Colletotrichum lindemuthianum),
Mofo-branco (Sclerotinia sclerotiorum),
Crestamento-bacteriano-comum (Xanthomonas phaseoli pv. phaseoli e X. citri pv. fuscans),
Murcha de Curtobacterium (Curtobacterium flaccumfaciens pv. flaccumfaciens).
A ocorrência de dias chuvosos com temperaturas amenas e alta umidade relativa favorece significativamente a antracnose e o mofo-branco, inclusive em regiões tradicionalmente menos úmidas, sobretudo em áreas com irrigação por pivô- central e presença de escleródios no solo.
Nas safras da seca e de outono-inverno, prevalecem outras doenças importantes:
Mancha-angular (Pseudocercospora griseola),
Murcha de Fusarium (Fusarium oxysporum f. sp. phaseoli),
Mosaico-dourado, causado pelo Bean golden mosaic virus (BGMV), transmitido pela mosca-branca (Bemisia tabaci),
Crestamento-bacteriano-comum (Xanthomonas phaseoli pv. phaseoli e X. citri pv. fuscans)
Murcha de Curtobacterium (Curtobacterium flaccumfaciens pv. flaccumfaciens).
Embora a antracnose seja menos frequente nessas épocas, pode afetar plantios tardios (abril em diante), especialmente no Sul do Brasil, onde a umidade relativa ainda pode ser elevada. Já nas regiões Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste, a menor ocorrência de chuvas e temperaturas mais altas resultam em menor severidade de doenças foliares, tornando essas épocas mais adequadas para a produção de sementes.
Contudo, eventos climáticos extremos e irregulares, cada vez mais comuns nos últimos anos, têm levado à ocorrência esporádica de chuvas durante as safras secas, o que favorece reinfecções por antracnose e mofo-branco, inclusive em regiões historicamente mais secas.
As doenças de solo, como murcha de Fusarium (Fusarium solani) e de Rhizoctonia (Rhizoctonia solani), continuam diretamente relacionadas à presença de inóculo no solo, manejo inadequado do solo e ausência de rotação de culturas. O uso crescente de cultivares suscetíveis em sistemas intensivos tem agravado esses problemas.
Já a incidência de mosaico-dourado, principal virose que afeta a cultura, com exceção de parte da região Sul, é um dos principais problemas de doença nas safras da seca e de outono-inverno. Devido à dificuldade de controle, até o momento a doença tem limitado o cultivo da seca na maioria das regiões mais sujeitas à virose, restringido ou retardando a semeadura para o inverno propriamente dito.
O crestamento-bacteriano e a murcha de curtobacterium também podem ser problemas relevantes nas áreas sob irrigação. A antracnose pode ocasionar problemas nos plantios mais tardios (a partir de abril) principalmente nos estados da região Sul, na safra de outono-inverno. Nas outras regiões de temperaturas mais elevadas e menor umidade relativa (regiões Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste), a incidência das doenças diminui devido ao predomínio de temperaturas moderadas e principalmente menor ocorrência de chuvas, diminuindo a duração do molhamento foliar. Essas épocas são, inclusive, mais propícias para a produção de sementes. O mofo-branco pode provocar sérios danos em áreas de cultivo sob pivô-central e presença de escleródios no solo.
Citam-se mais de 45 enfermidades, de maior ou menor importância, que incidem sobre o feijoeiro, exigindo a aplicação frequente de produtos químicos, o que contribui para elevar os custos de produção, a contaminação do ambiente e do alimento.