Geração de energia elétrica

Conteúdo atualizado em: 21/07/2025

Autores

André Ricardo Alcarde - Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq)

Fabio Cesar da Silva - Embrapa Agricultura Digital

 

A cana-de-açúcar é um recurso totalmente renovável capaz de gerar açúcar, álcool anidro (aditivo para a gasolina) e álcool hidratado, além de possibilitar a geração de energia elétrica por meio da queima do bagaço (Figura 1) e a produção de plástico biodegradável, a partir do açúcar. A cogeração de energia vem sendo adotada com bastante regularidade em usinas sucroalcooleiras brasileiras, caracterizadas por gerar altos volumes de bagaço de cana, onde para cada tonelada de matéria-prima usada, são gerados cerca de 250 kg de bagaço de cana. 

 
Foto: Patrícia Cândida Lopes.
Figura 1. Bagaço  para geração de energia.

 

O mercado brasileiro de energia elétrica vem atravessando grandes turbulências, devido à demanda e à inflexibilização da oferta. O levantamento do consumo de energia elétrica per capita mostra o Brasil na 99ª colocação, ficando atrás de pequenos países como Uruguai e Venezuela (Tabela 1).

 
Tabela 1. Consumo de energia elétrica em diferentes países (consumo Kwh / habitante).
Ranking País Consumo de eletricidade Per capita (kWh por habitante)  Ano 2020
1 Islândia 50.409
2 Noruega 22.351
3 Kuwait 19.300
4 Barém 17.349
5 Catar 15.236
6 Finlândia 14.859
7 Canadá 13.854
8 Suécia 13.085
9 Estados Unidos 11.730
10 Emiratos Árabes Unidos 11.329
11 Luxemburgo 10.304
12 Taiwan 10.058
13 Listenstaine 10.057
14 Ilhas Caimão 9.880
15 Coreia do Sul 9.793
16 Nova Caledónia 9.445
17 Austrália 9.008
18 Arábia Saudita 8.668
19 Macau 8.263
20 Trindade e Tobago 8.163
99 Brasil

2.405

Fonte: https://www.indexmundi.com/map/?v=81000&r=xx&l=pt. Acessado em 17/07/2025

 

Diante deste mercado, uma possível solução para os problemas que o Brasil enfrenta em relação à produção de energia é a geração de eletricidade, a partir do uso de resíduos da cana-de-açúcar (bagaço, palha, palhiço etc), alternativa que apresenta diversos aspectos positivos (Ortega Filho, 2003), como:

  • - Atendimento da necessidade nacional de geração de energia elétrica a partir de novas fontes energéticas;
  • - Produção de energia elétrica com tecnologia totalmente limpa, de fonte renovável, que contribui para a preservação ambiental;
  • - Produção de energia elétrica, sobretudo na época de menor pluviosidade, que coincide com a safra sucroalcooleira;
  • - Inclusão de um novo agente de produção de energia elétrica, contribuindo, assim, para a consolidação do novo modelo de mercado competitivo;
  • - Ganho de competitividade no setor sucroalcooleiro mundial, uma vez que será agregado novo produto de receita estável a partir do melhor aproveitamento de um produto residual;
  • - Utilização de tecnologia totalmente nacional, preservando empregos locais e desonerando a balança de pagamentos do País.

 

Outra vantagem da utilização do bagaço para geração de energia é o baixo custo, já que o produto não depende de variações cambiais. Para as usinas, além de fonte adicional de receita, a cogeração (Figura 2) pode representar a oportunidade de renovação da planta industrial, com investimentos em novas máquinas e equipamentos mais modernos e eficientes.

Foto: Patrícia Cândida Lopes.
Figura 2. Co-geração de energia elétrica.

 

Entretanto, o sistema apresenta diversas dificuldades, como a demora para se conseguir financiamentos para os investimentos, incertezas quanto à real capacidade de absorção pelo mercado da energia gerada pelo setor canavieiro e quanto à suficiência do lucro para cobrir os custos operacionais e permitir a amortização dos investimentos.

A possibilidade de o setor sucroalcooleiro aumentar a geração de energia elétrica está ligada a questões como:

- Tipo de tecnologia e potência a serem instaladas;

- Período de geração (na safra de cana ou o ano todo);

- A quem e de que forma vender o excedente de energia;

- Fontes e condições para se viabilizar os novos investimentos;

- Importância da nova atividade em relação às tradicionais açúcar e álcool;

- Mudanças a serem feitas na lavoura canavieira, especialmente o aproveitamento da palha como fonte geradora de energia.


A importância da co-geração de energia elétrica para o setor sucroalcooleiro

Segundo definição da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), a cogeração de energia é o processo de produção combinada de calor útil e energia mecânica, geralmente convertida total ou parcialmente em energia elétrica (A Figura 3 apresenta uma sala de distribuição de energia elétrica), a partir da energia química disponibilizada por um ou mais combustíveis. A cogeração trata-se da associação da geração simultânea combinada de dois ou mais tipos de energia, utilizando um único tipo de fonte energética.

 
Foto: Rogério Haruo Sakai.
Figura 3. Sala de distribuição de energia elétrica.

 

No caso, a fonte energética é o bagaço de cana que, ao ser queimado, gera energia térmica em forma de vapor e energia elétrica (Ortega Filho, 2003 ). O funcionamento ocorre da seguinte maneira: em uma fornalha o bagaço é queimado, enquanto o vapor é produzido em uma caldeira (Figura 4). O jato de vapor gira uma turbina que, por estar interligada ao eixo de um gerador, faz com que este entre em movimento, gerando a energia elétrica (ANTONELI, 2019).

 
Foto: Raffaella Rossetto.
Figura 4. Caldeira.

 

Existem vários aspectos a serem considerados para a implantação de um sistema de cogeração, como a disponibilidade de combustíveis a baixo custo (o bagaço, por exemplo); a existência ou não de soluções convencionais de expansão do sistema elétrico economicamente compatíveis com a cogeração e o ritmo de crescimento da demanda.

Pode-se dizer que a opção pela cogeração deve considerar quatro tipos de potenciais: termodinâmico, técnico, econômico e mercado potencial. O potencial termodinâmico é definido em bases teóricas, independentemente da existência da tecnologia de conversão, e representa a quantidade máxima de energia a ser produzida. Já o potencial técnico procura definir a tecnologia mais adequada e eficiente para o sistema, enquanto o potencial econômico define os investimentos a serem feitos, visando garantir o retorno em menor tempo possível. O mercado potencial é determinado pela demanda de mercado e para quem será gerada a energia.


Referência

ANTONELI, L. G. de A. e L. Geradores de vapor. In: DELGADO, A. A.; CESAR, M. A. A.; SILVA, F. C. da. Elementos de tecnologia e engenharia de produção de açúcar, etanol e energia. Piracicaba: FEALQ, 2019. cap. 34, p. 865-956.

ORTEGA FILHO, S. O potencial da agroindústria canavieira do Brasil. [Serrana, PHB Industrial, 2003]. 9 p.Digitado.