20/08/25 |

Agriculturas do Brasil

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Marcelo Morandi -  Chefe da Assessoria de Relações Internacionais da Embrapa


“Vivo... No coração de quem planta e quem colhe. E segue sempre em frente. Vivo com o coração. Da tradição e da inovação” (trecho da canção ‘Eu Vivo', de Ana Castela). 


A agricultura tem muitas belezas. Uma delas é sua diversidade de formas e contextos. A produção de alimento (e tudo mais que a agricultura proporciona) é algo que encanta. 
Quem, como eu, teve a oportunidade de conviver de perto com a agricultura desde criança, talvez seja suspeito para falar. Ao longo da vida e da carreira profissional como agrônomo e cientista há pouco mais de 30 anos, pude conviver com uma variedade incrível de ‘agriculturas’, tanto no Brasil como em outras partes do mundo. Trabalhei com uma diversidade considerável de sistemas, desde produção de flores, de frutas de hortaliças em sistemas orgânicos e ‘convencionais’, de grãos, de culturas energéticas, de cultivo em campo aberto e em estufas simples ou de alta tecnologia. E por aí vai. 

Para quem conhece todo o seu processo, cultivar a terra para dela tirar seu fruto é uma arte. Mas, como toda boa arte, há ciência, estudo, conhecimento e tecnologia envolvidos. 
Há pouco mais de 50 anos, nossa agricultura era de baixa produtividade, com pouca tecnologia adequada aos nossos solos e clima predominantemente tropical. Com isso, o aumento de produção vinha principalmente da expansão da área de cultivo, avançando sobre a vegetação nativa. Se por um lado tínhamos uma diversidade de alimentos locais produzidos para consumo próprio e comércio local (algumas plantas hoje conhecidas como PANC – plantas alimentícias não-convencionais – e outros alimentos regionais), havia uma limitação muito grande da diversidade que hoje vemos em qualquer hortifruti pelo país ou é servido nos típicos restaurantes ‘por kilo’, mais uma das nossas ‘jaboticabas’ culturais. 


O conceito emergente de ‘monotonia alimentar’ trata da redução da dieta da população mundial a poucos alimentos – talvez meia dúzia ou um pouco mais – que são hoje hegemônicos na elaboração dos alimentos, especialmente aqueles processados. É fato, mas não conta a história toda! Na realidade brasileira, a monotonia alimentar está muito mais associada a questões de renda e acesso aos alimentos do que a ausência de diversidade de produção. Essa mesma questão, renda e acesso, está na base do nosso paradoxo: a absurda existência de insegurança alimentar severa e fome em nosso país. 

No Brasil, há o que chamo de 'mosaico de agriculturas', caracterizado pela produção de uma imensa gama de produtos, em diferentes sistemas de produção em propriedades de diferentes tamanhos, tipos de manejo e modelos de relação de trabalho. Essa diversidade garante ao país a produção de frutas, legumes, verduras, lácteos e outras proteínas animais, fibras, além de energia e biocombustíveis em quantidade e qualidade. Permite ainda a produção sustentável de commodities que colocam o país como importante player global no mercado de produtos agropecuários in natura e processados. 

Isso foi construído com base na ‘fundação da agricultura tropical’, com ciência própria e adequada aos solos e clima do país, diverso por natureza, com sete biomas distintos. Foi um imenso trabalho de geração e adaptação de variedades de plantas e animais e de sistemas de manejo. Com o contínuo avanço da ciência e compreensão do funcionamento da natureza – também bebendo nas fontes tradicionais do conhecimento empírico – cada etapa trouxe para a cena ‘o melhor conhecimento disponível’ conduzindo a jornada em direção à sustentabilidade, que é sempre um alvo móvel. 
Sim, a sustentabilidade é uma jornada não um episódio. 

Temos a possibilidade hoje, com o atual conhecimento disponível, de reincorporar aos sistemas produtivos áreas que anteriormente foram degradadas, mas que hoje podem se tornar produtivas ou retornar à natureza como áreas de restauração, que darão suporte aos serviços ecossistêmicos, que retroalimentam a agricultura. É um ciclo virtuoso! O crescimento pode se dar pelo aumento de produtividade, não mais pela expansão sobre vegetação nativa. 

Mas, aí vem outro paradoxo. Das mais de 5 milhões de propriedades rurais cadastradas hoje no Brasil, só uma parte se beneficia de todos estes avanços fantásticos das ciências e da tecnologia. Ainda temos um contingente expressivo de produtores rurais vivendo na pobreza, não por falta de vontade, mas por falta de meios. A inclusão destes nos circuitos dos mercados é um imenso desafio, porém, o sucesso desta empreitada será uma revolução sem precedentes no combata à fome e à insegurança alimentar. 

Aqui temos uma imensa vantagem comparativa, competitiva e cooperativa: o nosso ‘mosaico de agriculturas’. Não há uma fôrma úncia que serve para todos, o que permite que essa inclusão se dê por uma diversidade de vias e modelos que podem atender a demandas e características de cada região, os distintos desejos da sociedade e mais, uma pode apoiar a outra no seu desenvolvimento. Há mais sinergias que antagonismos. As diferenças enriquecem e dão mais opção aos consumidores. Sim, temos espaço e ambiente para a coexistência de todos os modelos de agricultura. Não faz o menor sentido a guerra de narrativas entre agronegócio versus agricultura familiar, ou agroecologia versus intensificação sustentável, e por aí vai. Cada uma tem suas particularidades, suas demandas específicas, sua importância e suas complementariedades. 

E, diante dos cenários desafiadores da geopolítica atual – que acentua a disrupção das cadeias globais – e das mudanças do clima, com ocorrência em escala crescente de eventos extremos, é preciso olhar com muita atenção a vulnerabilidade da agricultura e dos sistemas alimentares. A intensificação de secas e de chuvas concentradas, alteração de temperaturas máximas e mínimas, formação de novos padrões de circulação de correntes de ar são alguns sintomas que já vemos em todas as regiões do país e que trarão desafios adicionais para toda a agricultura. Combater as mudanças climáticas, a insegurança alimentar e a desigualdade social é promover uma transição justa onde todos podem ganhar. 

Já passou da hora de unir esforços em torno de nosso desafio maior! 

Isso tudo parece utópico? Que seja! As grandes transformações na história começaram pelo sonho daqueles que ousaram enxergar futuros possíveis e construí-los a partir da realidade do seu presente.

Assessoria de Comunicação

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