Embrapa Pecuária Sul
Na abertura dos Diálogos pelo Clima, a defesa do papel da agropecuária brasileira na transição verde
Foto: Thiago Sousa
Da esquerda para a direita: Clenio Pillon, Rodrigo Lima, Adriano Scarpa, Ronaldo Teixeira e Arnaldo Jardim
O desafio climático global exige respostas concretas, ambiciosas e integradas. Foi com esse pano de fundo que especialistas, parlamentares e representantes do setor produtivo e do governo participaram do painel “Desafio multiescalar da mudança do clima e oportunidades para inovação disruptiva”, realizado durante a abertura da série Diálogos pelo Clima, promovida pela Embrapa nesta quarta-feira (7).
Moderado por Clenio Pillon, diretor de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa, o painel reuniu o deputado federal Arnaldo Jardim, o coordenador de estratégias sobre mudança do clima na agropecuária do Ministério da Agricultura, Ronaldo Teixeira, o gerente de mudança do clima da Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), Adriano Scarpa, e o sócio-diretor da Agroícone, Rodrigo Lima.
Ciência e cooperação como base da transição
Na fala de abertura, Pillon destacou que o debate não se restringe às mudanças climáticas em si, mas envolve a articulação entre ciência, sistemas sustentáveis de produção, serviços ambientais, políticas públicas e inclusão social. “Não basta termos a melhor ciência do mundo se ela não incluir pessoas, no campo e na cidade”, afirmou. Segundo ele, a biodiversidade brasileira já oferece soluções concretas, como bioinsumos desenvolvidos a partir de microrganismos nativos, que ajudam a enfrentar extremos climáticos e reduzem emissões de gases de efeito estufa.
Clima como oportunidade para o Brasil liderar
Primeiro a falar, o deputado Arnaldo Jardim defendeu que o Brasil pode ser protagonista da economia verde e da transição energética global. “Definitivamente, o Brasil não deve enxergar a questão ambiental como penalização, mas como uma formidável oportunidade”, disse. Destacou o programa Combustível do Futuro, a legislação de concessões florestais e os avanços em bioinsumos como instrumentos-chave para a redução de emissões.
Jardim também ressaltou a importância do mercado de carbono e a necessidade de métricas claras para a inserção definitiva do setor agropecuário. “A produção agropecuária brasileira é sequestradora de carbono. Precisamos reconhecer isso com dados e ciência para inserir o agro de forma propositiva”, argumentou.
Adaptação, eficiência e inclusão social
Representando o Ministério da Agricultura, Ronaldo Teixeira abordou os desafios climáticos na pecuária, setor responsável por cerca de 70% das emissões do agro. Defendeu maior eficiência na produção e destacou a necessidade de adaptação diante de eventos extremos cada vez mais frequentes. “Temos tecnologia, temos ciência. Mas precisamos fazer com que ela chegue na ponta e inclua os pequenos produtores”, afirmou.
Ele também alertou para a pressão internacional crescente e as exigências por rastreabilidade e transparência, apontando o risco de exclusão de agricultores familiares do mercado caso não haja apoio efetivo em crédito, assistência técnica e políticas públicas integradas.
Inovação como eixo central da agenda climática
Para Rodrigo Lima, da Agroícone, a inovação deve ser o centro da resposta brasileira à crise climática. “Falar em inovação não é só drone ou robô. É descobrir soluções viáveis para o agricultor familiar que enfrenta 35 problemas por dia e sequer enxerga o carbono”, provocou. Ele defendeu que a agricultura seja vista como solução climática e destacou que 85% dos países signatários do Acordo de Paris incorporaram o setor em seus compromissos nacionais.
Lima criticou abordagens reducionistas centradas apenas na mitigação e destacou a necessidade de integrar adaptação e cobenefícios, como segurança alimentar e inclusão produtiva. “Se a resposta à crise for parar de produzir, estaremos agravando o problema. O desafio é produzir mais, com menos impacto, e isso depende de ciência e inovação permanente”, completou.
O papel das florestas e os obstáculos regulatórios
Encerrando o painel, Adriano Scarpa, da Ibá, ressaltou o papel das florestas plantadas e da restauração ecológica como solução climática baseada na natureza. “Temos hoje 10,2 milhões de hectares de florestas plantadas e mais 6,7 milhões de vegetação nativa vinculadas ao setor. Isso representa 4,9 bilhões de toneladas de carbono estocado”, afirmou.
Scarpa alertou para o risco de perda de produtividade com as mudanças no regime climático e apontou entraves regulatórios nacionais e internacionais que dificultam a valorização do setor nos mercados de carbono. “Muitas regras são definidas pelo Norte Global e não reconhecem os benefícios reais gerados por nossas florestas. Precisamos de critérios justos e adequados à nossa realidade”, afirmou.
Frentes múltiplas e interconectadas
Ao encerrar o painel, Pillon destacou a complexidade dos desafios em debate e a urgência de avançar em frentes múltiplas e interconectadas. “Estamos lidando com três nexos fundamentais: clima e produção de alimentos; alimentos e saúde; produção e biodiversidade”, afirmou. Ele resumiu os principais pontos da discussão em oito palavras-chave para orientar a pesquisa agropecuária nas próximas décadas: produtividade, competitividade, resiliência climática, saudabilidade, sustentabilidade, soberania alimentar, inclusão socioprodutiva e transformação digital. Ao agradecer os participantes, Pillon reforçou que a ciência brasileira precisa estar à altura desses desafios, conectada à sociedade, às políticas públicas e às urgências do planeta, atuando cada vez mais em alianças estratégicas públicas e privadas para seguirmos dando respostas concretas aos desafios das cadeias e para os temas complexos associados à mudança do clima.
Diálogos pelo Clima: ciência rumo à COP30
O painel integrou a programação da primeira edição dos Diálogos pelo Clima, evento organizado pela Embrapa com foco em construir uma agenda nacional de ciência e inovação para a adaptação e mitigação das mudanças climáticas.
Organizado pela Embrapa, o evento tem como objetivo promover o diálogo entre representantes do governo, setor produtivo, ciência, sociedade civil e organismos internacionais, reunindo diferentes visões para enfrentar desafios estruturais da agricultura brasileira em um contexto climático cada vez mais adverso.
A agenda dos Diálogos pelo Clima contempla sete edições ao longo de 2025, cada uma conectada a um bioma brasileiro e seus desafios específicos. Após o primeiro evento em Brasília, o circuito seguirá por outras seis cidades:
- Cuiabá (MT) – 26 de maio, Bioma Cerrado
- Corumbá (MS) – 12 de junho, Bioma Pantanal
- Manaus (AM) – 2 de julho, Bioma Amazônia
- Porto Alegre (RS) – 6 de agosto, Bioma Pampa
- Fortaleza (CE) – 16 de setembro, Bioma Caatinga
- São Paulo (SP) – 8 de outubro, Bioma Mata Atlântica
Cada edição será dedicada a debater os impactos das mudanças climáticas sob uma perspectiva territorial e setorial, reunindo pesquisadores, produtores, gestores públicos, representantes da sociedade civil e lideranças locais. A proposta é integrar conhecimento científico, inovação tecnológica e participação social em um esforço nacional articulado de preparação para a COP30.
Em cada edição, serão realizados painéis temáticos, mesas-redondas e debates técnicos, com a missão de captar percepções, apresentar soluções e construir convergências em torno da adaptação e mitigação das mudanças climáticas no setor agropecuário. As contribuições serão sistematizadas em um documento-síntese, a ser entregue ao embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP30, como subsídio técnico e político aos negociadores brasileiros na conferência da ONU sobre o clima, que será realizada em Belém, no Pará.
Além de subsidiar a participação do Brasil na COP30, o documento pretende influenciar políticas públicas e investimentos estratégicos em ciência, inovação e tecnologias sustentáveis para o campo. A proposta dos Diálogos é ambiciosa: fortalecer o papel do Brasil como protagonista na transição para uma agricultura de baixo carbono, sustentável, inclusiva e baseada em conhecimento
Jorge Duarte
Assessoria de Comunicação (Ascom)
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